quinta-feira, 18 de abril de 2013

Marrequinho: Elisângela: A Moça de Itapaci - Capítulo XXXIV

A vida do ser humano é movimento constante, mutação permanente. Não poderia ser de outra forma, senão a estagnação seria inevitável, e, isso seria insuportável. 
Eu estava tendo dificuldades em conviver com a realidade dos meus quarenta anos de idade. Sentia-me só. Só e triste. Quase todos os companheiros de trabalho, meus colegas caminhoneiros, eram casados, e quando voltavam das longas viagens que faziam, era natural que quisessem estar com suas respectivas famílias, seu grupo familiar formado por esposa e filhos. Dos antigos companheiros de viola, alguns haviam morrido. Outros se casaram e renunciaram ás pretensões artísticas. Outros ainda, haviam se mudado para longe daqui, em busca de novos ideais. Minha vida estava sem graça. Vazia. Dada a minha sensibilidade, eu sentia imensa falta da compreensão de alguém que pudesse compartilhar comigo os meus sonhos, meus anseios e minhas esperanças.
Alguém com quem eu pudesse manter um vínculo permanente de confiança, de companheirismo, e, que tivesse os mesmos ideais que eu, no sentido de formar uma família, um lar, onde reinasse a harmonia, a paz. Nessa época escrevi a letra da música “SONHO DE ESPERANÇA” que foi musicada pelo Odaés Rosa e gravada por “Creone e Barreirito”. A primeira estrofe diz assim: “Um sorriso de criança / Um perfume de mulher / Numa casinha modesta / É tudo o que a gente quer / Mas neste pequeno sonho / Tamanha beleza existe / Que nunca passa de sonho / No desespero de um triste”... Até a data a que me refiro, isso tinha sido realmente apenas um sonho. E, a minha alma carente de afeto estava cobrando uma providência para que aquele sonho fosse transformado numa realidade. Comecei a pensar seriamente, no assunto. 
Então, casualmente (será?), conheci aquela que seria a minha esposa. A moça de Itapaci (GO). Se aquele encontro foi provocado pelo acaso ou pelo destino, eu não sei. Só sei que quando fomos apresentados, conversamos um pouco sobre banalidades, mas, disfarçadamente analisamos, ou, avaliamos um ao outro. E ao que parece, nenhum de nós se decepcionou com o resultado obtido no pequeno espaço de tempo que estivemos juntos naquele dia, em companhia de amigos comuns, que comemoravam alguma coisa, sei lá o que. A guria era uma linda mulher. Um pouco nova pra mim, e, um bocado arrogante, pensei. Mesmo assim iniciou-se um vínculo de amizade e de confiança entre nós, apesar de, no início, a coisa não ter sido muito fácil, não. Eu estava acostumado a ser paparicado, luxado e sempre tratado de maneira muito especial, pela minha condição de “compositor famoso”. Embora um pouquinho "maduro", tinha boa aparência física e estava razoavelmente bem, em matéria de finanças. 
Ela, a florzinha interiorana, era um "pitéu" de mulher. Estava com vinte anos de idade. Essa diferença de idade (20 anos), na época não nos pareceu ser entrave para um bom relacionamento (Porém, mais tarde isso contribuiu para que surgisse uma série de desacertos entre nós). 
Mas, daquele encontro não programado, surgiu uma aproximação não planejada, que nos incentivou a tentar uma união, gerada por mútuos interesses. Eu, com quarenta anos, estava cansado de conviver com mulheres aventureiras, oportunistas que viam em mim apenas um ponto de apoio aonde vinham escorar suas frustrações. Ela, apesar da pouca idade, já havia passado pela contrariedade de algumas experiências amorosas de resultados ruins. Nada tínhamos a perder. Éramos náufragos tentando encontrar uma tábua de salvação que pudesse nos proporcionar sustentação, para que conseguíssemos nos manter à tona. 
Por algum tempo mantivemos um relacionamento íntimo, mas, discreto. Tentávamos descobrir, se havia entre nós, afinidades, com as quais pudéssemos alimentar pretensões de uma união duradoura. Não descobrimos nada, e, para encurtar a história, simplesmente obedecemos às regras que regem o procedimento dos bem intencionados, e, nos casamos, no dia 30 de agosto de 1983. 
Deus, em sua infinita misericórdia nos concedeu a benção de três filhos, que significam, para mim (e para ela, eu sei) o patrimônio mais valioso que poderíamos ter adquirido, através dessa nossa jornada terrena. Mais um dos meus sonhos se realizou. À minha maneira, eu amei aquela mulher. Amei muito. Vivia para ela e para os nossos filhos. Mas, a forma com que eu demonstrava o meu amor e o que eu sentia por ela, certamente não era a forma que ela esperava, desejava e merecia ser amada. Descobrimos incompatibilidade de gênios, surgiram conflitos emocionais, e, uma série de acontecimentos, que não vem ao caso, até que após nove anos de casamento, nos separamos. Ou, melhor dizendo, ela se separou de mim. Houve acordo. Ela assumiu a guarda dos nossos pequenos (o que me doeu demais), fizemos doação a eles, do patrimônio imobiliário que possuíamos e, ela ficou com o direito de uso-fruto do imóvel.
Francisco Júnior, Pollyana e Henrique (Acervo Pessoal)
Sentindo na alma o peso da desilusão, do fracasso e da desesperança, fui obrigado a me afastar de tudo o que dava sentido à minha vida. Meus filhos, minha esposa e meu lar. Sozinho, outra vez. Caminhando sem saber pra onde, pra quem e pra que. Mas, eu não me sentia no direito de sucumbir. Tinha que prosseguir, aceitando com resignação o meu sofrimento e as minhas provas, demonstrando a Deus, e ao mundo, que o meu positivismo, a minha crença, as minhas palavras de fé, não eram apenas palavras. Era (e é) a minha real prática de vida. Mas, até hoje, carrego o peso da frustração de não ter tido o direito de estar presente, acompanhando parte da infância e da adolescência dos meus filhos.


Contato com Marequinho:

* Trigésimo Quarto capítulo do livro "Marrequinho - O Menino de Campo Formoso", de Francisco Ricardo de Souza. Imagens: Acervo Pessoal/ Elisângela Aparecida de Souza. Publicação autorizada pelo autor. Todos os direitos reservados.

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