quinta-feira, 22 de novembro de 2018

As regiões de Firmeza e Campo Aberto já fizeram parte do Município de Silvânia


Pode ocupar o imaginário do morador de Orizona, ao tentar remeter mentalmente à sua história após ler alguma publicação sobre o assunto, que no período anterior a 1850, o sertão de Santa Cruz, onde hoje está instalado o Município, seria um verdadeiro deserto, sem qualquer ocupação humana. Essa concepção não está totalmente errada, mas não procede plenamente. É importante salientar que a região estava próxima dos principais caminhos desbravados pelos colonizadores, desde as primeiras décadas do século XVIII e que rumavam à antiga capital, Vila Boa.
As primeiras minas de Santa Cruz foram descobertas por Manoel Dias da Silva e em 1737 aparece a primeira referência à Capela Curada dedicada a Nossa Senhora da Imaculada Conceição, de Santa Cruz. Bomfim (Silvânia) foi fundada no ano de 1774 e ficava na Estrada Geral de Goiás. Em 1823, o povoamento dependia administrativamente do julgado de Santa Cruz. Nesta época foram registrados por viajantes sítios e fazendas de moradores que haviam se instalado na região. Entre esses viajantes, o brigadeiro Cunha Mattos e os naturalistas Luiz Alencoust e Auguste Saint-Hilaire.
Segundo o brigadeiro Raymundo José da Cunha Mattos, governador das armas em Goiás, em sua “Carta Corográfica Plana da Província de Goiás” (1826), o caminho que seguia entre São Paulo/ Rio de Janeiro a Vila Boa atravessava o Rio Corumbá cerca de três quilômetros abaixo de onde hoje está a velha ponte Epitácio Pessoa (Travessia do Anhanguera), passava por S. Cruz, seguia por Bomfim, Meia-Ponte (Pirenópolis). Era a chamada Estrada Geral de Goiás. Outro caminho para a Capital passava após Bomfim, por Campinas, pela estrada de Anicuns, descoberta por João Caetano da Silva em 1817.
Segundo observava Cunha Mattos[1], no trecho entre Santa Cruz e Bomfim existiam pontos de parada de tropeiros e viajantes. Nesses pontos estavam situados sítios ou fazendas. Eram conhecidos os sítios Campo Aberto e Santa Rita e o Rancho do Basílio. Uma estrada interna posteriormente e conhecida em 1823 foi aberta e remetia da travessia do Corumbá sem passar em Santa Cruz, passava pelo sítio do Baú até o Campo Aberto. Próximo a Campo Aberto iniciava a estrada rumo a Santa Luzia (Luziânia), margeando localidades como o Taquaral, Piracanjuba, Água Clara e Boa Vista. No mapa de Cunha Mattos estava identificado o córrego da Firmeza, cortado pela estrada de Santa Luzia. O nome Firmeza foi dado pelas condições de travessia do córrego em certo ponto, que era feita “a val” sem que animais e carros atolassem. Por conta das estradas, essas regiões foram as primeiras a serem povoadas pelos imigrantes oriundos de Minas Gerais e São Paulo.
Um dos primeiros moradores da Firmeza foi o fazendeiro Joaquim Fernandes de Castro, que veio de Patrocínio/MG com a esposa Maria Rosa do Carmo e filhos, estabelecendo e exercendo liderança na região por volta de 1848. Há poucos registros de sua presença, mas queremos destacar um episódio em especial, fato que impactou na divisão geográfica de Santa Cruz e Bomfim.
Toda essa região estava na época da chegada da família, como parte do município de Santa Cruz. Porém, algum fato não muito claro, como a distância geográfica ou afinidades políticas e econômicas fizeram que Joaquim Fernandes de Castro solicitasse em 1875 junto à Assembleia Provincial a transferência de sua fazenda de nome “Formiga”, do território de Santa Cruz para Bomfim[2]. O requerimento, apresentado na sessão legislativa de 03 de junho de 1875, foi encaminhado na ocasião para a Comissão de Estatística. Na sessão do dia 09 do mesmo mês, conforme a ata[3], “foi lido mais um parecer da mesma comissão de estatística sobre o requerimento do cidadão Joaquim Fernandes de Castro, o qual sendo aprovado, mandou-se extrair cópia, a ser remetido ao Exmo. governo da província para tomar a consideração que merecer”.
A resolução da assembleia provincial foi registrada na 43ª. Sessão Ordinária da Assembleia Legislativa Provincial de Goiás, em 27 de julho de 1876[4], e também incluiu na mudança a região do Campo Aberto. Resolução de igual teor e com valor de lei foi assinada pelo governador Antero Cícero d’Assis em 09 de agosto de 1876 e publicada no Correio Official em 13 de setembro de 1876[5], com a redação transcrita abaixo:
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“Resolução n. 570 de 9 de Agosto de 1876.

Transfere do termo de S. Cruz para o de Bomfim o território das fazendas Firmeza e Campo Aberto.

Antero Cícero d’Assis, Presidente da província de Goiás.
Faço saber a todos aos seus habitantes que a assembleia legislativa provincial resolveu e eu sancionei a resolução seguinte:
Art. 1º. Fica pertencendo, tanto na parte civil como na religiosa ao termo da freguesia de Bomfim, o território de que se compõem as fazendas Firmeza e Campo Aberto, da propriedade, aquela de Joaquim Fernandes de Castro, e esta dos herdeiros da finada D. Jacintha de Mello, e assim desmembrando do termo e freguesia de S. Cruz, de que fazia parte.
Art. 2º. Revogam-se as disposições em contrário.
Mando, portanto, a todas as autoridades a quem o conhecimento e execução desta resolução pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nela se conter. O secretário desta província a faça imprimir, publicar e correr. Palácio do Governo de Goiás, aos nove de Agosto de mil oitocentos e setenta e seis, quinquagésimo quinto da Independência e do Império.

L.S.
ANTERO CÍCERO D’ASSIS

Selada e publicada nesta Secretaria de Governo da província de Goiás, aos 12 de Agosto de 1876 – O Secretário, Caetano Nunes da Silva.”

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Esta resolução vigorou até a edição da Lei n. 277 de 12 de julho de 1906[6], que elevou à categoria de Vila o arraial de Campo Formoso e fixou os seus limites territoriais.



ANSELMO PEREIRA DE LIMA
(E-mail: anselmopereiradelima@gmail.com) 


Fontes Documentais:

1. MATTOS, Raymundo José da Cunha. Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão pelas Províncias de Minas Gerais e Goiás – Tomo I. Rio de Janeiro: J. Villeneuve, 1836.
2. Correio Official de Goyaz. Ano XXXVIII. N. 43, pág. 3, 16 de junho de 1875.
3. Correio Official de Goyaz. Ano XXXVIII. N. 46, pág. 5, 03 de julho de 1875.
4. Correio Official de Goyaz. Ano XXXIX. N. 92, pág. 3, 29 de novembro de 1876.
5. Correio Official de Goyaz. Ano XXXIX. N. 70, pág. 1, 13 de setembro de 1876.
6. Lei sancionada pelo presidente do Estado de Goiás, Miguel da Rocha Lima. Ver: Semanário Official. N. 349, pág. 1, 09 de agosto de 1906. 

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