sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Contribuições do professor Salviano Pedro Borges para Campo Formoso

Provavelmente originário do município de Santa Juliana, Triângulo Mineiro, onde exerceu entre outros cargos o de agente dos correios, o professor público Salviano Pedro Borges teve a sua presença conhecida em Campo Formoso (Orizona) a partir de 1899[1], quando foi nomeado aos 08 de outubro como professor público do Escola de Primeira Entrância do Sexo Masculino, equivalente ao ensino primário. Também nesta época acumulava a função de delegado literário, uma espécie de inspetor da educação no distrito. Acumulou o cargo de professor até 20 de dezembro de 1906[2], quando pediu exoneração após ser nomeado coletor de rendas municipais.
Como homem culto e envolvido com o processo político local, deu grandes contribuições para o desenvolvimento local. Em 1903, por exemplo, quando foi criado o Club Patriótico de Campo Formoso, o professor exerceu a função de secretário da agremiação. Na criação da Vila de Campo Formoso, Salviano foi nomeado para o Conselho de Intendência e chegou a discursar na sua instalação, em 15 de outubro de 1906. Em 1911, o professor exercia o cargo de Promotor Público. Foi exonerado em 1917[3]. Também chegou a ser intendente municipal de Campo Formoso, cargo hoje equivalente a prefeito.
Em sua vida particular, exerceu diversas atividades, sendo uma delas a de farmacêutico. A sua família deixou um importante legado para o município: era pai de Abilon (tabelião e com atuação política), Eustórgio (dentista), Ildebranda (esposa de Minervino Silva), Onésima (casada com Manoel Silvério de Oliveira e Urbano. Salviano atuou também como correspondente em jornais da região. Ao jornal Araguary em especial, escreveu diversos artigos. Assinava-os com o pseudônimo de Nilo-Vasa e falava de assuntos do cotidiano de Campo Formoso, dos visitantes, das relações comerciais e especialmente se preocupava com o desenvolvimento econômico local.
Casado com Maria Claudina Gonçalves Borges (1864-), Salviano morreu em 14 de novembro de 1923. No artigo abaixo, publicado na edição de 13 de março de 1909[4], o colunista fala da preocupação com o desenvolvimento econômico local. Segundo o mesmo, Campo Formoso estava ficando em situação atraso em relação aos demais municípios vizinhos.

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Campo Formoso (Goiás)

Seja embora tido como utopia o que lembrei a meus conterrâneos em benefício do município e mais ainda da mocidade, que parece de inatividade, cumpro o dever à que me impus.
Em quase todos os nossos municípios vizinhos contam um fator seguro de sua riqueza, e um meio de colocação à mocidade que aspira um lugar na sociedade dos homens úteis.
Bella Vista, além da enorme quantidade de fumo que fabrica, cuja renda é maior que a que dá o gado que cria, tem hoje entre diversas pequenas oficinas de seleiro, sapateiro, etc, um curtume modelo chamando a atenção do consumidor e atraindo a concorrência de capitais, dando, portanto, emprego a grande número de rapazes em ocupações sérias e úteis ao mesmo tempo em que aumenta o fundo de reserva particular e pública de seu município.
Santa Cruz, de pouco tempo a esta parte começou a ocupar-se do plantio de café e hoje conta com diversos pequenos cafezais que produzirão a sua riqueza futura, chamando os capitais para aumento da mesma.
Bomfim produz bastante café e fumo de primeira qualidade, além de engenhos de cana que abastecem o município e exportam grande quantidade de açúcar e aguardente. Santa Luzia tem o conhecido e saboroso café, melhor café do Estado, fabrica em grande escala a marmelada, a goiabada e tem diversas oficinas de seleiro e sapateiro, onde dão meio a seus filhos de viver independentes.
Antas a par de uma lavoura bem desenvolvida de café e cereais, cana-de-açúcar, etc, em escala superior ao consumo do município fabrica fumo, aliás bem regular, e tem diversas pequenas oficinas onde se ensina a mocidade a trabalhar e concorrendo para riqueza pública e particular do lugar, chamam a concorrência de capitais e de pessoas para engrossar o número de seus habitantes.
Corumbazinho, um dos mais ricos municípios do Estado, dispondo de casas comerciais importantíssimas, tem como em nenhum outro município, café, açúcar, fumo e oficinas de trabalho.
Qual a riqueza de Campo Formoso? Felizmente começam alguns lavradores inteligentes da fazenda Taquaral o plantio do café e com grande esperança, porque vem coroado do melhor êxito e suas tentativas.
Precisamos prever nosso futuro, amparar a mocidade, que não tem ocupação séria e estável e é possível perder-se no vício.
Precisamos melhorar a riqueza deste próspero município, dando-lhe maior desenvolvimento nas artes, ofícios e lavoura, obstando desta arte a saída de capitais para a compra de centenas de arrobas de café, promover a criação de curtumes  de real importância, para evitar a compra contínua de matéria-prima para os poucos oficiais que aqui trabalham, aumentar, amparando ou mesmo criando uma boa oficina de seleiro e sapateiro e desta forma desviar a saída constante de dinheiro para a compra de arreios e calçados, obter bons oficiais de ferreiro, alargar o campo de consumo, etc. 
NILO-VAZA

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ANSELMO PEREIRA DE LIMA
(E-mail: anselmopereiradelima@gmail.com) 


Referências, Fontes Documentais e Notas:

1. Ver: Semanário Official. Ano VI, n. 214, pag. 7, de 09/12/1899.
2. Ver: Semanário Official. Ano XIV, n. 378, pag. 3, de 23/03/1907.
3. Ver: Correio Official. n. 103, pag. 1, de 29/1/1917.
4. Ver: Araguary. n. 652, pag. 02, de 13/03/1909.

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